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domingo, 4 de agosto de 2013

EXISTENCIALISMO, ALBERT CAMUS E A HISTÓRIA

NA HISTÓRIA, MAS FORA DELA: CAMUS E O PARADOXO DA HISTORICIDADE A PARTIR DE O MITO DE SÍSIFO.[1]
Paulo Eduardo de Sousa[2]

RESUMO

Esta atividade reflexiva trata de aclarar o entendimento de Albert Camus sobre a história, tendo em vista seu duplo desígnio: o da historicidade, a caminhada do homem no tempo, e o da possibilidade de enfrentamento dela mesma, estando nela. A partir da obra O Mito de Sísifo (1941), percebemos como estão inseridas as problemáticas históricas da revolta e da revolução diante da descoberta do absurdo, conceito este tão caro à obra camusiana, na busca do enfrentamento deste, diante do niilismo extremado.

Palavras-chave: Absurdo, História, Revolta, Revolução,.  


INTRODUÇÃO

É à sombra de Jean-Paul Sartre que a corrente filosófica do Existencialismo[3] se afirma para o grande público leigo interessado ou entre os acadêmicos menos desavisados. No entanto, tão emblemático quanto o francês de olhar característico, surgiu um argelino, nascido à periferia do capitalismo monopolita da primeira metade do século XX, intimamente envolvido por seus sentimentos socialmente adquiridos ante a natureza característica do espaço geográfico delimitado entre a África norte-saariana e o Mar Mediterrâneo, local de ocupação francesa com desígnios imperialistas.
A história pessoal de Camus é o enredo da própria história ocidental da primeira metade do século XX. Depois de perder o pai em batalha da Primeira Hecatombe Europeia, muda para a casa de sua avó materna, em Argel, que mais tarde, no jogo sangrento das guerras de Descolonização Europeia na África, percebe que o homem não é somente história. Havia de se pensar algo para além dela, mesmo estando nela, condicionado a ela, tendo mesmo que questionar a atuação dos homens no tempo: a historicidade.
Prêmio Nobel de literatura de 1957, Camus enveredou pelo caminho da escritura que denunciava os problemas humanos de seu tempo. Cometido por uma tuberculose séria que o acompanhava corriqueiramente, percebeu que na vida era preciso buscar atitudes de enfrentamento daquilo que amarra o homem: o absurdo- a história e suas situações de absurdo.
E quais alternativas o homem teria para sair da história, mesmo estando amarrado a ela, para seguir em frente na vida dominada pela absurdidade? A revolta é, assim, como a descoberta do absurdo, um elemento fundamental na obra de Camus para superar/mantendo-se na vida absurda ou o que é ela própria.
Foi a partir de algumas exposições desse caminho camusiano, de aparente paradoxo ante sua existência na história, em sala de aula, que percebemos o teor da crítica do argelino. Seria muito importante, a partir dessa atividade reflexiva, encararmos o pensamento camusiano para história sob uma ótica do indivíduo, de valorização da vida e da negação de tudo quanto se apresenta ao homem como definitivo, no sentido de insuperável.
Sísifo é esse exemplo. Camus toma o mito grego do homem desafiador dos deuses, os quais o condena ao trabalho eterno e inútil de rolar uma pedra até o alto de uma montanha, de onde cai, pelo seu próprio peso, sempre que atinge o cume, para explicitar seu entendimento metafísico da existência. Com Sísifo, até a história deve ser questionada, assim como tudo aquilo que rende o homem ou o deixa perplexo, sem ação diante do não sentido da vida.
O traçado seguido nessa atividade reflexiva é o mesmo da obra camusiana: viver, apesar da ausência de sentido da existência na história ou ao sentido que ela nos empurra. Compreender a crítica de Camus à história é compreender o significado que esse autor dá a condição humana.  


2. A RECUSA CAMUSIANA DA HISTÓRIA, NA HISTÓRIA.

A obra camusiana aponta a um elemento singular: o sentido da existência humana; o valor à vida, em direção à recusa de uma significação para ela. Especialmente em O Mito de Sísifo[4], com seu “Absurdo”, da manutenção da vida mesmo diante da inutilidade, da ausência de amanhã, de um céu despovoado e sem esperança na história, Camus apresenta alicerces em direção à vivência, apesar desse mesmo absurdo, mesmo nessas condições, contrárias aos romantismos que nos coloca a existência, a história. Mas, como assim, contra a história? Não é nela que nos realizamos enquanto sujeitos? Para Camus, revoltar-se contra a absurdidade é revoltar-se contra a história. A revolta é em Camus a recusa da esquiva[5], ora pelo suicídio, ora pela continuidade de viver na absurdidade, sem superá-la. Mas a revolta não está presa à história? Presa, mas fora dela, diria Camus. Não se trata de negar a história, mesmo porque não teria sentido essa ação, mas de criticá-la como sendo um princípio absoluto. Daí, então, Camus diferenciar as ações históricas de “revolta” e de “revolução”, quando a primeira cobra à segunda, para além do caráter de transformação, uma posição permanente de vigilância ante a própria história. Fazer viver o absurdo é enfrentá-lo na história, apesar dela nos esmagar[6]. Nas linhas que se seguem está pressuposto todo esse percurso, desde o uso de Sísifo como mote para o “herói absurdo[7]”, passando pela luta contra os ditames da história, às alternativas de viver ante a absurdidade, questões fundamentais para compreender Camus.  
           

2.1 O Exemplo de Sísifo como Exemplar do Absurdo.

Pensar a condição humana em Camus é, pois, explicitar a necessidade de um comprometimento teórico-prático, das questões de engajamento e relação direta com os homens no mundo. Por isso, acreditamos não foi por acaso a escolha de Sísifo para ilustrar e aclarar nosso entendimento sobre as questões que tratara no seu livro, de título alusivo ao herói grego. Mas, quem foi Sísifo?
Contam os gregos, que Sísifo[8] foi condenado pelos deuses a passar a eternidade no mundo inferior, levando uma pedra ao cume de uma montanha, que de lá rolava, fazendo Sísifo voltar a lavá-la novamente ao cume, de onde tornava a cair. Entre os versos 465 e 473 da Odisseia, Homero cita esse herói e seu fatigante castigo:
[...] Vi Sísifo, anelante e afadigado,
Em pés e mãos firmar-se, pedra ingente
Para um monte empurrando, e lá do cume
Galgado por Crateis, rolar de novo
O pertinaz penedo; ei-lo persiste,
Suor escorre e a testa se empoeira [...] (2009, p.130).

Camus, no capítulo IV de O Mito de Sísifo (1941), trata logo nas primeiras linhas, de escancarar sua escolha por esse sujeito da mitologia grega e sua condição absurda. Tal escolha subjaz a procura da construção da passagem interna entre a condição de absurdidade e a postura do homem moderno ante essa condição.  Diz Camus: “[...] não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança” (2012, p. 137). Era a condição que Camus buscava: “Já devem ter notado que Sísifo é o herói absurdo. [...] seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo o ser se empenha em não terminar coisa alguma” (CAMUS, 2012, p. 138).
O passo seguinte que Camus desvela é em direção à consciência do absurdo. Sísifo, ao retornar ao pé da montanha, toma ciência “do que faz”, mas não somente “do porque faz”. Meursault[9], n’O Estrangeiro (1942), compartilha da mesma experiência de Sísifo antes que a pedra rolasse e este tivesse de regressar à planície. Depois de receber a notícia da morte de sua mãe, numa quinta-feira, a qual morava num asilo distante da cidade onde seu filho morava, Meursoult, o filho, pede ao patrão dois dias de licença, esperando a resposta positiva daquele, diante de uma desculpa tão forte. No entanto, quando acorda no dia seguinte ao enterro de sua mãe a ideia da licença lhe volta à tona. Diz Meursault:
Ao acordar, compreendi por que meu patrão se mostrara aborrecido quando lhe pedi meus dois dias de licença: hoje é sábado. [...] Meu patrão muito naturalmente pensou que eu disporia, assim, de quatro dias de folga, contando com o domingo, e isso não lhe podia agradar (CAMUS, 2002, p. 22).
 
“Este mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo?”, diz Camus (2012, p. 139), em referência a Sísifo. Aqui estamos diante do absurdo ou da sua (in)compreensão. Viver sem a esperança de futuro. Buscar viver a vida, sendo redundante, por ela mesma. Como que uma “ética da quantidade”[10]. Viver é o importante, apesar do absurdo.
Ver-se logo, que Camus materializa uma relação entre o exemplo de Sísifo e o trabalhador moderno. Em passagem, Camus descreve a condição física de Sísifo no seu trabalho:
[...] todo esforço de um corpo tenso ao erguer a pedra enorme, empurrá-la e ajudá-la a subir uma ladeira cem vezes recompensada; vemos o rosto crispado, a bochecha colada contra a pedra, o socorro de um ombro que recebe a massa coberta de argila, um pé que a retém, a tensão dos braços, a segurança totalmente humana de suas mãos cheias de terras (2012, p. 138).
          
Em consonância com o trabalhador moderno:

O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida (2012, p. 139).
   
Como Meursoult:
Hoje, trabalhei muito no escritório. [...] lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que utilizamos está toda molhada: serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda assim, de um detalhe sem importância. [...] Trabalhei a tarde toda. Fazia muito calor no escritório e, à noitinha, ao sair, senti-me feliz por voltar, caminhando lentamente ao longo do cais. O céu estava verde e eu me sentia contente. Apesar disso, fui diretamente para casa, pois queria preparar umas batatas cozidas para mim (CAMUS, 2002, p. 28 - 29)

O lugar-comum de Sísifo, o operário e Meursoult é a sua condição diante do absurdo ou nela própria. Na contradição de se ver sem um reino dos fins, sem promessas de vitórias futuras e viver para além da determinação histórica ou de suas promessas, Sísifo é este exemplo. O do homem absurdo, que “sem negá-lo, nada faz pelo eterno” (CAMUS, 2012, p. 79).
O problema de Camus é a passagem do universal ao singular. Do universal que se compreende no singular. Da fragilidade do homem ante o universo. De Sísifo e dos Sísifos que buscam a alternativa do suicídio ante o absurdo. Mas também daqueles que continuam vivendo sem resposta a seus absurdos particulares. Na sociedade moderna a condição de proletário: um ser que a tudo atende sem contradição, mas é razão de toda cadeia produtiva contraditória. A vida cotidiana corriqueira e de sentidos mil e ao mesmo tempo ausente de sentido, que encontra a interrogação angustiante: Vale a pena viver assim? No dizer de Camus, “A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência” (CAMUS, 2012, p. 27).
O homem consciente de sua condição humana limitada e desligado de promessas messiânicas somente pertence ao presente. A rejeição dessa situação, vivendo apesar dela, é a chave do entendimento em direção à crítica de Camus à história, enquanto alvo em absoluto ou meio a um fim.

   
2.2 Colhido pela História, Escolhendo a Revolta e Tolhendo a Revolução.

No dizer camusiano: “Entre a história e o eterno, escolhi a história porque amo as certezas. Dela, ao menos, tenho certeza, e como negar essa força que me esmaga?” (2012, p. 100 - 101). Esse parece ser o ponto alto do problema que ensejamos aqui. Camus é consciente de que é inescapável não agir na história, mas procura negá-la, porque se sente aniquilado por ela.
Esse paradoxo foi alvo, no seu tempo, de insatisfação por parte daqueles que defendiam o campo histórico como o lugar da historicidade[11]. Francis Jeanson, em Albert Camus ou a Alma Rebelde[12], expressa ironicamente sua insatisfação, quando acusa Camus de ser portador “de uma moral da cruz vermelha[13]”, no sentido de está à margem das lutas revolucionárias, cuidando apenas dos feridos pós-batalha. Em outras palavras, Camus foi interpretado como covarde ante a história que se processava. Quanto a esse aspecto, o argelino responde[14]: “[...] es que mi libro no niega la historia (negación que estaría desprovista de sentido) sino que sólo critica la actitud que lleva com finalidade el convertir a la historia em um absoluto”(1999, p. 63).
A partir da resposta de Camus podemos começar a mensurar o sentido do seu incômodo ante a história. Ele continua: “No es la historia, pues, lo que se rechaza, sino um punto de vista, um modo de encarar el espíritu frente a la historia; no la realidade, sino, por ejemplo, el critico suyo y su tesis” (1999, p. 63). Jeanson compreende que o argelino se utiliza da crítica à história para se esquivar do processo histórico orgânico de seu tempo. Não compreende que Camus não se nega a isso, mas para fazê-lo, começa por denunciar “[...] os campos de escravos sob a flâmula da liberdade, os massacres justificados pelo amor ao homem” (CAMUS, 1997, p. 14).
A preocupação de Camus é com o indivíduo massacrado em nome da multidão, das promessas de amanhã coletivas. O que está em evidência na crítica camusiana ante a história é a denúncia dos campos de concentração nazista e soviético. São os crimes de lógica[15], ante os quais “[...] a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes” (CAMUS, 1997, p. 13). Mas, na contramão do que supõe Jeanson, Camus aponta ao engajamento histórico, especialmente quando deixa claro que “[...] não podemos mais escolher nossos problemas. São eles que, um após outro, nos escolhem” (CAMUS, 1997, p. 15). Camus foi colhido pela história: “Consciente de não puder me separar do meu tempo, decidi me incorporar a ele” (2012, p. 100).
A atitude camusiana de repulsa aos crimes de lógica é o caminho que liga a sua preocupação com o assassinato de si mesmo - o suicídio. Escreve Camus: “Esta lógica, levou os valores de suicídio, dos quais nosso tempo se alimentou, às suas últimas consequências, ou seja, ao assassinato legitimado” (1997. p. 17). Assim como o suicídio é irracional para Camus, uma vez que para admitir o absurdo é necessário está e se conservar vivo, assim como uma “aposta absurda[16]”, os assassinatos em massa são irracionais pelo mesmo motivo – de ser essa aposta como bem de todos os seres humanos. “O raciocínio absurdo não pode ao mesmo tempo preservar a vida daquele que fala e aceitar o sacrifício dos outros” (CAMUS, 1997, p. 18).
Diante da afirmação de se viver apesar da contradição que enseja o absurdo ou que o é por si só, Camus aponta para a superação do niilismo[17], passo seguinte à descoberta do absurdo. Se “tudo é permitido não significa que nada é proibido” (CAMUS, 2012, p. 80). Então, que alternativa na história o homem petrificado, aos moldes de Sísifo ao descer a montanha, tem para viver sua nascente consciência absurda? A escolha pela revolta.
O entendimento de revolta nasce similarmente associado ao sentido de revolução. Enquanto a revolta em Camus “[...] constitui o fundo do conflito, da fratura entre o mundo e o meu espírito, senão a consciência que tenho dela(?), assim, então, se quero sustentá-lo, deve ser por meio de uma consciência perpétua, sempre renovada, sempre tensa” (2012, p. 64), a revolução é uma cristalização da revolta ou de um de seus momentos. Acredito ser oportuno aqui citar Marx e Engels, em A Ideologia Alemã, apenas para ser honesto à história e à cronologia da historicidade. Estes autores, antes mesmo de Camus, apontaram para essa delicada distinção/acomodação, uma vez que,
[...] na lógica, o que é a revolta como tal: a abdicação do respeito pelo sagrado. Entretanto, aqui ela assume, além disso, um caráter prático específico.
revolução = revolta santa
  revolta = revolução egoísta ou profana
                                            revolução = subversão das condições dadas
  revolta = subversão Minha
revolução = ato político ou social
                revolta = meu ato egoísta
revolução = derrubada do vigente
  revolta = vigência da derrubada (2013, p.364).

 Em O Homem Revoltado (1951), o próprio Camus, no capítulo III, A Revolta Histórica, no subtítulo O Terrorismo de Estado e o Terror Nacional, sob o subtema A Profecia Revolucionária, descreve alguns pressupostos marxistas, evidenciando, a começar pela denominação do subtema “profecia”, o quanto aqueles alemães deram seguimento ao projeto burguês iluminista, que Camus também denomina “profecia”. O desconcerto de Camus com o Comunismo é, além da denúncia dos campos de concentração da União Soviética estalinista, a promessa de futuro: O reino dos fins[18], a esperança num fim. Diz Camus:
A idade de ouro adiada para o fim da história, e coincidindo, por uma dupla atração, com um apocalipse, justifica tudo. É preciso mediar sobre a prodigiosa ambição do marxismo, avaliar sua exortação desmedida, a fim de compreender que tal esperança obriga a menosprezar problemas que aparecem então como secundários (1997, p. 241).

Em Camus, a “escolha”[19] pela revolta é a continuação da crítica pela escolha da história. O indivíduo particular é o alvo. Numa paródia agostino-cartesiana[20] o argelino explicita sua compreensão de revolta ante o absurdo:
Proclamo que não creio em nada e que tudo é absurdo, mas não posso duvidar de minha própria proclamação e tenho de, no mínimo, acreditar em meu protesto. A primeira e única evidência que assim me é dada, no âmbito da experiência absurda, é a revolta. [...] A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível” (CAMUS, 1997, p. 20 – 21). 
       
A revolta camusiana contra a história não se revela somente pela descrença num caráter teleológico, mas por muitos empregarem a esse caráter uma fé absurda, uma esperança num futuro de progresso pelo sacrifício de um presente aguerrido. É nesse sentido que Franklin Leopoldo e Silva esclarece o problema do significado paradoxal de revolta em Camus, em seu artigo intitulado Arte, Subjetividade e História em Sartre e Camus[21]:  
A dificuldade de compreender o real significado da revolta em Camus provém de que teríamos, para isso, de pensar a condição humana como reunindo contraditoriamente, isto é, tragicamente, as atitudes de recusa e aceitação: recusa do mundo pelo homem e aceitação humana enquanto recusa do homem pelo mundo. É importante notar que, por mais difícil que seja para Sartre compreender este ponto, a recusa da história em Camus não significa recusa do mundo (2000, p. 2)

Parece que, convencido da passividade de Camus ante a história, ao contrário do que nos adverte Leopoldo e Silva, Jeanson acusa o argelino de atuar como juiz da própria história, sobretudo quando escreve: “[...] Camus se creyó cómodo em la historia, a tal punto que comenzó  a moralizarla” (1999, p. 33). Ou ainda: “[...] se Camus estuviese buscando, pra si mismo, um refugio, y antecipadamente se esforza por justificar aqui um ‘desprendimiento’, uma evasión hacia algún refugio donde pudiera finalmente entregasse a las delicias rebeldes de uma existência sin história” (1999, p. 37).
Nesses moldes, Jeanson critica Camus, como se cobrasse uma postura não-reacionária. Ao escolher a revolta à revolução Camus também é acusado de escapismo frente à história e favorecimento ao pensamento da direita francesa por essa postura e por escrever demasiado bem. Ao passo que Camus responde n’A Carta a Jean - Paul Sartre, às críticas: 1)“Em realidad su colaborador [Jeanson] no puede dejar de pensar que no existen fronteras precisas entre el hombre de derecha y la crítica del marxismo dogmático” (1999, p. 51); e 2) Apenas repare em lo poco cortés de hacer crer que el buen estilo es de derecha y que los izquierdistas debem, por virtude revolucionaria, escribir em jerga y mal.” (1999, p. 52). Para dizer diferente, Camus apimenta sua resposta ratificando que não há muita diferença entre as práticas da direita ante as mesmas do marxismo cristalizado e que, para ser de esquerda não pudesse escrever bem, como se fosse privilégio somente da direita.
O que fica claro, então, é que a posição de Camus frente a história é de revolta, debitando a esta em detrimento daquela um inconformismo, uma insatisfação com o presente esmagador. Fica mais explícito ainda que o homem não pode ser reduzido à história apenas, mas que ela exige e nos empurra a uma atitude de ação em detrimento da contemplação. Como Sísifo, que deixa o cume da montanha para buscar sua pedra e levá-la novamente ao pico infinitas vezes. Há de se encontrar um sentido a cada vez que este sobe a montanha? “A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem” (CAMUS, 2012, p.141). Notadamente, para além das críticas de seus ex-companheiros, a posteriori, mais especificamente de desvirtuar a revolução e de deriva à metafísica, Camus já havia desenvolvido n’O Mito de Sísifo (1941) toda uma construção argumentativa para sua ideia de Revolta em detrimento da de revolução, bem como dos elementos de enfrentamento do absurdo. É o que Camus enseja no capítulo II, de O Mito de Sísifo (1941), a saber, O Homem Absurdo, base para esta atividade reflexiva.       


2.3 “Apesar de Você”: Os (Des)Caminhos camusianos à História.

No Brasil, no início da década de 1970, em plana Ditadura Militar comandada pelo General Médici, explodiu um sucesso musical que, em pouco tempo foi percebido pela censura e proibida sua execução à sociedade: era “Apesar de Você”, de autoria de Chico Buarque de Holanda, regravada por Clara Nunes, desavisadamente de que seria um hino contra o regime opressor reacionário brasileiro.
Não obstante, vemos, assim como o impacto da música de Buarque na sociedade brasileira daquela década, as atitudes apontadas por Camus para o enfrentamento do absurdo. Não são elementos éticos a priori, mas formas singulares de viver a partir do absurdo. Para ilustrar o paralelo que faço, cito Chico:
[...] Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar [...] (BUARQUE, 1970).

O desafio do brasileiro ante a ditadura é similar ao do homem camusiano frente ao absurdo. Camus enseja, então, três atitudes: o Donjuanismo, o Comediante (ator) e o Conquistador. Em especial, para ser coerente ao elemento central da nossa atividade, a recusa à história, nos deteremos um pouco mais sobre o último personagem.
Primeiro, o apaixonado conquistador de corações mil vive seus romances não pela ausência de amor, mas porque ama intensamente. Diz Camus: “O que o Don Juan põe em prática é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende a qualidade” (2012, p. 85). Ele vive o presente intensamente, não legando nada a ninguém. Nesse sentido, a recusa da histórica por Camus é traduzida como a recusa à nostalgia dotada de esperança, de não se apegar à contemplação, mas agir no seu tempo. Viver e viver mais é o importante.
Segundo, o ator, consciente de sua limitação psicossocial, cumpre seu papel ao mesmo passo que interpreta quase que dogmaticamente seus personagens já vistos e revistos nos ensaios, ele também cria. Mata, faz viver personagens. É um construir-desconstruindo-reconstruindo. No dizer de Camus: “O ator dispõe de três horas para ser Iago ou Alceste, Freda ou Gloucester. Nesse breve período ele os faz nascer e morrer em cinquenta metros quadrados de tábuas” (2012, p. 92).
E, terceiro, o Conquistador, que ciente de sua falibilidade, empreende suas campanhas apesar da história. Aqui, certamente, ficará mais fácil a defesa de Camus ante seus acusadores de inércia ante a história e, ao mesmo tempo de demonstrar sua posição em favor da revolta. Nos dois casos, pressupõe-se que há um engajamento de Camus e que esse vai em direção ao indivíduo. “Sempre chega o memento em que é preciso escolher entre a contemplação e a ação. Isto se chama tornar-se homem” (CAMUS, 2012, p. 101). Portanto, o argelino caracteriza o personagem como sendo um aliado a seu tempo. Aquele que mesmo com as promessas eternas de glórias, continuam desafiar a história, porque são conscientes de que nada dura e de que há uma ausência de salvação. Desse modo Camus se livra da acusação de que “‘ciertamente , el rebelde no niega la historia que o rodea, em ella trata de afirmasse, pero se encuentra frente a ella, como el artista frente a lo real, y la rechaza sin escaparle’” (1999, p. 40).
Assim como na música de Buarque, esses personagens recusam seu destino, o destino traçado pela história e o ultrapassam estando ainda neles. Assim como o paradoxo de Camus em relação à história.


CONCLUSÃO

Se diante das condições históricas que nos oprime existem alternativas de enfrentá-las, sejamos realistas: decidamos pela história, como escreveu Camus. Se a realização do humano está atrelada ao tempo, mais especificamente ao seu tempo, engajemo-nos nele.
O que Camus certamente não concordaria é com o uso da história como promessa de amanhã seguro, que pode desviar em assassinatos em massa, com justificativas niilistas, as quais assistimos e revisitamos em boa parte da história do século XX.
Em suma: Camus materializa por meio de Sísifo a aspiração da liberdade, que nesse autor encontra-se na posição individual, mas não individualista, de tomada de decisão diante daquilo que aprisiona o homem. Tem consciência de que sua humanidade é a do próprio homem. Por isso não se retira da vida, nem permite que a retirem de outrem. Não procura o suicídio e condena os assassinatos em nome das ideologias. Se “é preciso imaginar Sísifo feliz[22]” é também necessário reconhecê-lo fora da história, porque se deve manter uma postura de vigilância contínua a ela. Mas, sobretudo, na história como sujeito paradoxal, contraditório e finito.       


BIBLIOGRAFIA

BUARQUE, Chico. Apesar de Você. Disponível em: <http://letras.mus.br/chico-buarque/7582/>. Acesso em: 19 jul. 2013.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulinha Watch. 9.ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.

______. O Estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. 22.ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.

______. Carta a Jean-Paul Sartre. In: Polemica Sartre-Camus. Montevideo: Elaleph, 1999. Disponível em:< http://www.uruguaypiensa.org.uy/andocasociado.aspx?200,699>. Acesso em: 17 jun. 2013.

______. O Homem Revoltado. Tradução de Valerie Rumjanek. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.

homero. “ODISSEIA” E “ILÍADA” DE HOMERO EM PORTUGUÊS (PDF). Disponível em : <http://pensamentosnomadas.wordpress.com/2012/03/21/odisseia-e-iliada-de-homero-em-portugues-pdf/>. Acesso em: 15 jul. 2013.

JEANSON, Francis. Albert Camus o El Alma Rebelde. In: Polemica Sartre-Camus. Buenos Aires: Elaleph, 1999. Disponível em:< http://www.uruguaypiensa.org.uy/andocasociado.aspx?200,699>. Acesso em: 17 jun. 2013.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Novo Testamento: “Eu”. In: _____. A Ideologia Alemã. Tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2013. Cap. 3, p. 235 – 434.

SILVA, F.L. Arte, Subjetividade e História em Sartre e Camus. Disponível em: <http://www.olhar.ufscar.br/index.php/olhar/article/viewFile/20/19>. Acesso em 10 jul. 2013.





[1] Atividade necessária à aprovação na disciplina de Existencialismo, tendo como ministrador o Professor Dr. Emanuel Ricardo Germano.
[2] Graduando do curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará. (pauloeduardosousa@hotmail.com).
[3] Num primeiro momento, esta denominação assume um entendimento contrário à corrente da Fenomenologia, talvez especialmente devido a Sartre, devido a sua luta contra os idealistas.
[4] Ensaio filosófico camusiano de 1941, que trata sobre o suicídio, subjacente à condição do homem frente à história, objeto dessa atividade reflexiva.
[5] CAMUS, 2012, p. 22.
[6] CAMUS, 2012, p.101. 
[7] CAMUS, 2012, p.138.
[8] Sísifo, fundador dos Eólios e mais tarde dos Coríntios, aparece duas vezes na famosa narrativa de Homero(Ilíada-Odisséia) nessas circunstância do mundo inferior, exercendo seu castigo designado pelos deuses.
[9] Personagem principal do romance de Camus em O Estrangeiro (1942), parte da trilogia que ainda se encaixa o texto teatral Calígula (1941) e o ensaio filosófico (op. cit.) O Mito de Sísifo (1941), objeto dessa atividade reflexiva.  
[10] Ver CAMUS, 2012, p. 85.
[11] Entendemos historicidade aqui como a ação dos humanos no tempo, não como um princípio de generalizações ou determinações.
[12] Este artigo faz parte de uma compilação de textos críticos às exposições de Camus, especialmente ao O Homem Revoltado (1951) sob o título Polêmica Sartre-Camus, e, também, de respostas de Camus aos seus críticos. Francis Jeanson é um deles.    
[13] Cf. Polemica, 1999, p.13.
[14] As respostas de Camus à Jeanson são dadas num texto intitulado Albert Camus - Carta a Jean - Paul Sartre.
[15] Ver CAMUS, 1997, p. 13.
[16] Ver CAMUS, 1997, p. 16.
[17] Aqui entendido como a relativização absoluta de todos os valores.
[18] Cf. CAMUS, 1997, p.261-269.
[19] Ainda pensando que podemos escolher entre as oportunidades que temos.
[20] Referimo-nos à prova da existência de deus pelo argumento Agostiniano do inacabamento humano e da dúvida metódica de René Descartes como raciocínios similares.
[21] Revista Olhar, Ano 2, Nº 3, junho-2000.
[22] Esta é a frase última de O Mito de Sísifo

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