NA HISTÓRIA, MAS FORA DELA: CAMUS E
O PARADOXO DA HISTORICIDADE A PARTIR DE O
MITO DE SÍSIFO.
RESUMO
Esta atividade reflexiva
trata de aclarar o entendimento de Albert Camus sobre a história, tendo em
vista seu duplo desígnio: o da historicidade, a caminhada do homem no tempo, e
o da possibilidade de enfrentamento dela mesma, estando nela. A partir da obra O Mito de Sísifo (1941), percebemos como
estão inseridas as problemáticas históricas da revolta e da revolução diante da
descoberta do absurdo, conceito este tão caro à obra camusiana, na busca do
enfrentamento deste, diante do niilismo extremado.
Palavras-chave:
Absurdo,
História, Revolta, Revolução,.
INTRODUÇÃO
É
à sombra de Jean-Paul Sartre que a corrente filosófica do Existencialismo se
afirma para o grande público leigo interessado ou entre os acadêmicos menos
desavisados. No entanto, tão emblemático quanto o francês de olhar
característico, surgiu um argelino, nascido à periferia do capitalismo
monopolita da primeira metade do século XX, intimamente envolvido por seus
sentimentos socialmente adquiridos ante a natureza característica do espaço
geográfico delimitado entre a África norte-saariana e o Mar Mediterrâneo, local
de ocupação francesa com desígnios imperialistas.
A
história pessoal de Camus é o enredo da própria história ocidental da primeira
metade do século XX. Depois de perder o pai em batalha da Primeira Hecatombe
Europeia, muda para a casa de sua avó materna, em Argel, que mais tarde, no
jogo sangrento das guerras de Descolonização Europeia na África, percebe que o
homem não é somente história. Havia de se pensar algo para além dela, mesmo
estando nela, condicionado a ela, tendo mesmo que questionar a atuação dos
homens no tempo: a historicidade.
Prêmio
Nobel de literatura de 1957, Camus enveredou pelo caminho da escritura que denunciava
os problemas humanos de seu tempo. Cometido por uma tuberculose séria que o
acompanhava corriqueiramente, percebeu que na vida era preciso buscar atitudes
de enfrentamento daquilo que amarra o homem: o absurdo- a história e suas
situações de absurdo.
E
quais alternativas o homem teria para sair da história, mesmo estando amarrado
a ela, para seguir em frente na vida dominada pela absurdidade? A revolta é, assim,
como a descoberta do absurdo, um elemento fundamental na obra de Camus para
superar/mantendo-se na vida absurda ou o que é ela própria.
Foi
a partir de algumas exposições desse caminho camusiano, de aparente paradoxo
ante sua existência na história, em sala de aula, que percebemos o teor da
crítica do argelino. Seria muito importante, a partir dessa atividade reflexiva,
encararmos o pensamento camusiano para história sob uma ótica do indivíduo, de
valorização da vida e da negação de tudo quanto se apresenta ao homem como
definitivo, no sentido de insuperável.
Sísifo
é esse exemplo. Camus toma o mito grego do homem desafiador dos deuses, os
quais o condena ao trabalho eterno e inútil de rolar uma pedra até o alto de
uma montanha, de onde cai, pelo seu próprio peso, sempre que atinge o cume, para
explicitar seu entendimento metafísico da existência. Com Sísifo, até a
história deve ser questionada, assim como tudo aquilo que rende o homem ou o
deixa perplexo, sem ação diante do não sentido da vida.
O
traçado seguido nessa atividade reflexiva é o mesmo da obra camusiana: viver, apesar
da ausência de sentido da existência na história ou ao sentido que ela nos
empurra. Compreender a crítica de Camus à história é compreender o significado
que esse autor dá a condição humana.
2.
A RECUSA CAMUSIANA DA HISTÓRIA, NA HISTÓRIA.
A
obra camusiana aponta a um elemento singular: o sentido da existência humana; o
valor à vida, em direção à recusa de uma significação para ela. Especialmente
em O Mito de Sísifo,
com seu “Absurdo”, da manutenção da vida mesmo diante da inutilidade, da
ausência de amanhã, de um céu despovoado e sem esperança na história, Camus apresenta
alicerces em direção à vivência, apesar desse mesmo absurdo, mesmo nessas
condições, contrárias aos romantismos que nos coloca a existência, a história. Mas,
como assim, contra a história? Não é nela que nos realizamos enquanto sujeitos?
Para Camus, revoltar-se contra a absurdidade é revoltar-se contra a história. A
revolta é em Camus a recusa da esquiva,
ora pelo suicídio, ora pela continuidade de viver na absurdidade, sem
superá-la. Mas a revolta não está presa à história? Presa, mas fora dela, diria
Camus. Não se trata de negar a história, mesmo porque não teria sentido essa
ação, mas de criticá-la como sendo um princípio absoluto. Daí, então, Camus
diferenciar as ações históricas de “revolta” e de “revolução”, quando a primeira
cobra à segunda, para além do caráter de transformação, uma posição permanente
de vigilância ante a própria história. Fazer viver o absurdo é enfrentá-lo na
história, apesar dela nos esmagar.
Nas linhas que se seguem está pressuposto todo esse percurso, desde o uso de
Sísifo como mote para o “herói absurdo”,
passando pela luta contra os ditames da história, às alternativas de viver ante
a absurdidade, questões fundamentais para compreender Camus.
2.1
O Exemplo de Sísifo como Exemplar do Absurdo.
Pensar
a condição humana em Camus é, pois, explicitar a necessidade de um
comprometimento teórico-prático, das questões de engajamento e relação direta
com os homens no mundo. Por isso, acreditamos não foi por acaso a escolha de
Sísifo para ilustrar e aclarar nosso entendimento sobre as questões que tratara
no seu livro, de título alusivo ao herói grego. Mas, quem foi Sísifo?
Contam
os gregos, que Sísifo
foi condenado pelos deuses a passar a eternidade no mundo inferior, levando uma
pedra ao cume de uma montanha, que de lá rolava, fazendo Sísifo voltar a lavá-la
novamente ao cume, de onde tornava a cair. Entre os versos 465 e 473 da
Odisseia, Homero cita esse herói e seu fatigante castigo:
[...] Vi Sísifo,
anelante e afadigado,
Em pés e mãos
firmar-se, pedra ingente
Para um monte
empurrando, e lá do cume
Galgado por
Crateis, rolar de novo
O pertinaz
penedo; ei-lo persiste,
Suor
escorre e a testa se empoeira [...] (2009, p.130).
Camus,
no capítulo IV de O Mito de Sísifo (1941),
trata logo nas primeiras linhas, de escancarar sua escolha por esse sujeito da
mitologia grega e sua condição absurda. Tal escolha subjaz a procura da construção
da passagem interna entre a condição de absurdidade e a postura do homem
moderno ante essa condição. Diz Camus: “[...]
não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança” (2012, p. 137).
Era a condição que Camus buscava: “Já devem ter notado que Sísifo é o herói
absurdo. [...] seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela
vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo o ser se empenha em não
terminar coisa alguma” (CAMUS, 2012, p. 138).
O
passo seguinte que Camus desvela é em direção à consciência do absurdo. Sísifo,
ao retornar ao pé da montanha, toma ciência “do que faz”, mas não somente “do porque
faz”. Meursault,
n’O Estrangeiro (1942), compartilha
da mesma experiência de Sísifo antes que a pedra rolasse e este tivesse de
regressar à planície. Depois de receber a notícia da morte de sua mãe, numa
quinta-feira, a qual morava num asilo distante da cidade onde seu filho morava,
Meursoult, o filho, pede ao patrão dois dias de licença, esperando a resposta
positiva daquele, diante de uma desculpa tão forte. No entanto, quando acorda
no dia seguinte ao enterro de sua mãe a ideia da licença lhe volta à tona. Diz
Meursault:
Ao
acordar, compreendi por que meu patrão se mostrara aborrecido quando lhe pedi
meus dois dias de licença: hoje é sábado. [...] Meu patrão muito naturalmente
pensou que eu disporia, assim, de quatro dias de folga, contando com o domingo,
e isso não lhe podia agradar (CAMUS, 2002, p. 22).
“Este mito só é trágico
porque seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de
triunfar o sustentasse a cada passo?”, diz Camus (2012, p. 139), em referência
a Sísifo. Aqui estamos diante do absurdo ou da sua (in)compreensão. Viver sem a
esperança de futuro. Buscar viver a vida, sendo redundante, por ela mesma. Como
que uma “ética da quantidade”. Viver
é o importante, apesar do absurdo.
Ver-se
logo, que Camus materializa uma relação entre o exemplo de Sísifo e o
trabalhador moderno. Em passagem, Camus descreve a condição física de Sísifo no
seu trabalho:
[...] todo esforço de um corpo tenso ao
erguer a pedra enorme, empurrá-la e ajudá-la a subir uma ladeira cem vezes
recompensada; vemos o rosto crispado, a bochecha colada contra a pedra, o
socorro de um ombro que recebe a massa coberta de argila, um pé que a retém, a
tensão dos braços, a segurança totalmente humana de suas mãos cheias de terras
(2012, p. 138).
Em
consonância com o trabalhador moderno:
O operário de hoje trabalha todos os
dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só
é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos
deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição:
pensa nela durante a descida (2012, p. 139).
Como
Meursoult:
Hoje,
trabalhei muito no escritório. [...] lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá
prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que utilizamos está toda molhada:
serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao
patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda
assim, de um detalhe sem importância. [...] Trabalhei a tarde toda. Fazia muito
calor no escritório e, à noitinha, ao sair, senti-me feliz por voltar,
caminhando lentamente ao longo do cais. O céu estava verde e eu me sentia
contente. Apesar disso, fui diretamente para casa, pois queria preparar umas
batatas cozidas para mim (CAMUS, 2002, p. 28 - 29)
O lugar-comum de
Sísifo, o operário e Meursoult é a sua condição diante do absurdo ou nela
própria. Na contradição de se ver sem um reino dos fins, sem promessas de
vitórias futuras e viver para além da determinação histórica ou de suas
promessas, Sísifo é este exemplo. O do homem absurdo, que “sem negá-lo, nada
faz pelo eterno” (CAMUS, 2012, p. 79).
O problema de
Camus é a passagem do universal ao singular. Do universal que se compreende no
singular. Da fragilidade do homem ante o universo. De Sísifo e dos Sísifos que
buscam a alternativa do suicídio ante o absurdo. Mas também daqueles que
continuam vivendo sem resposta a seus absurdos particulares. Na sociedade
moderna a condição de proletário: um ser que a tudo atende sem contradição, mas
é razão de toda cadeia produtiva contraditória. A vida cotidiana corriqueira e
de sentidos mil e ao mesmo tempo ausente de sentido, que encontra a
interrogação angustiante: Vale a pena viver assim? No dizer de Camus, “A
lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo
tempo um movimento da consciência” (CAMUS, 2012, p. 27).
O homem
consciente de sua condição humana limitada e desligado de promessas messiânicas
somente pertence ao presente. A rejeição dessa situação, vivendo apesar dela, é
a chave do entendimento em direção à crítica de Camus à história, enquanto alvo
em absoluto ou meio a um fim.
2.2
Colhido pela História, Escolhendo a Revolta e Tolhendo a Revolução.
No
dizer camusiano: “Entre a história e o eterno, escolhi a história porque amo as
certezas. Dela, ao menos, tenho certeza, e como negar essa força que me
esmaga?” (2012, p. 100 - 101). Esse parece ser o ponto alto do problema que
ensejamos aqui. Camus é consciente de que é inescapável não agir na história,
mas procura negá-la, porque se sente aniquilado por ela.
Esse
paradoxo foi alvo, no seu tempo, de insatisfação por parte daqueles que
defendiam o campo histórico como o lugar da historicidade.
Francis Jeanson, em Albert Camus ou a
Alma Rebelde,
expressa ironicamente sua insatisfação, quando acusa Camus de ser portador “de
uma moral da cruz vermelha”,
no sentido de está à margem das lutas revolucionárias, cuidando apenas dos
feridos pós-batalha. Em outras palavras, Camus foi interpretado como covarde
ante a história que se processava. Quanto a esse aspecto, o argelino responde:
“[...] es que mi libro no niega la historia (negación que estaría desprovista
de sentido) sino que sólo critica la actitud que lleva com finalidade el
convertir a la historia em um absoluto”(1999, p. 63).
A
partir da resposta de Camus podemos começar a mensurar o sentido do seu
incômodo ante a história. Ele continua: “No es la historia, pues, lo que se
rechaza, sino um punto de vista, um modo de encarar el espíritu frente a la
historia; no la realidade, sino, por ejemplo, el critico suyo y su tesis”
(1999, p. 63). Jeanson compreende que o argelino se utiliza da crítica à
história para se esquivar do processo histórico orgânico de seu tempo. Não
compreende que Camus não se nega a isso, mas para fazê-lo, começa por denunciar
“[...] os campos de escravos sob a flâmula da liberdade, os massacres
justificados pelo amor ao homem” (CAMUS, 1997, p. 14).
A
preocupação de Camus é com o indivíduo massacrado em nome da multidão, das
promessas de amanhã coletivas. O que está em evidência na crítica camusiana
ante a história é a denúncia dos campos de concentração nazista e soviético. São
os crimes de lógica, ante
os quais “[...] a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar
assassinos em juízes” (CAMUS, 1997, p. 13). Mas, na contramão do que supõe Jeanson,
Camus aponta ao engajamento histórico, especialmente quando deixa claro que
“[...] não podemos mais escolher nossos problemas. São eles que, um após outro,
nos escolhem” (CAMUS, 1997, p. 15). Camus foi colhido pela história:
“Consciente de não puder me separar do meu tempo, decidi me incorporar a ele”
(2012, p. 100).
A
atitude camusiana de repulsa aos crimes de lógica é o caminho que liga a sua
preocupação com o assassinato de si mesmo - o suicídio. Escreve Camus: “Esta
lógica, levou os valores de suicídio, dos quais nosso tempo se alimentou, às
suas últimas consequências, ou seja, ao assassinato legitimado” (1997. p. 17). Assim
como o suicídio é irracional para Camus, uma vez que para admitir o absurdo é
necessário está e se conservar vivo, assim como uma “aposta absurda”,
os assassinatos em massa são irracionais pelo mesmo motivo – de ser essa aposta
como bem de todos os seres humanos. “O raciocínio absurdo não pode ao mesmo
tempo preservar a vida daquele que fala e aceitar o sacrifício dos outros”
(CAMUS, 1997, p. 18).
Diante
da afirmação de se viver apesar da contradição que enseja o absurdo ou que o é
por si só, Camus aponta para a superação do niilismo,
passo seguinte à descoberta do absurdo. Se “tudo é permitido não significa que
nada é proibido” (CAMUS, 2012, p. 80). Então, que alternativa na história o
homem petrificado, aos moldes de Sísifo ao descer a montanha, tem para viver
sua nascente consciência absurda? A escolha pela revolta.
O
entendimento de revolta nasce similarmente associado ao sentido de revolução.
Enquanto a revolta em Camus “[...] constitui o fundo do conflito, da fratura
entre o mundo e o meu espírito, senão a consciência que tenho dela(?), assim,
então, se quero sustentá-lo, deve ser por meio de uma consciência perpétua,
sempre renovada, sempre tensa” (2012, p. 64), a revolução é uma cristalização
da revolta ou de um de seus momentos. Acredito ser oportuno aqui citar Marx e
Engels, em A Ideologia Alemã, apenas
para ser honesto à história e à cronologia da historicidade. Estes autores,
antes mesmo de Camus, apontaram para essa delicada distinção/acomodação, uma
vez que,
[...]
na lógica, o que é a revolta como tal: a abdicação do respeito pelo sagrado.
Entretanto, aqui ela assume, além disso, um caráter prático específico.
revolução
= revolta santa
revolta = revolução egoísta ou profana
revolução
= subversão das condições dadas
revolta = subversão Minha
revolução
= ato político ou social
revolta = meu ato egoísta
revolução
= derrubada do vigente
revolta = vigência da derrubada (2013, p.364).
Em O
Homem Revoltado (1951), o próprio Camus, no capítulo III, A Revolta Histórica, no subtítulo O Terrorismo de Estado e o Terror Nacional,
sob o subtema A Profecia Revolucionária,
descreve alguns pressupostos marxistas, evidenciando, a começar pela
denominação do subtema “profecia”, o quanto aqueles alemães deram seguimento ao
projeto burguês iluminista, que Camus também denomina “profecia”. O desconcerto
de Camus com o Comunismo é, além da denúncia dos campos de concentração da
União Soviética estalinista, a promessa de futuro: O reino dos fins,
a esperança num fim. Diz Camus:
A idade de ouro adiada para o fim da
história, e coincidindo, por uma dupla atração, com um apocalipse, justifica
tudo. É preciso mediar sobre a prodigiosa ambição do marxismo, avaliar sua
exortação desmedida, a fim de compreender que tal esperança obriga a
menosprezar problemas que aparecem então como secundários (1997, p. 241).
Em
Camus, a “escolha”
pela revolta é a continuação da crítica pela escolha da história. O indivíduo
particular é o alvo. Numa paródia agostino-cartesiana o
argelino explicita sua compreensão de revolta ante o absurdo:
Proclamo
que não creio em nada e que tudo é absurdo, mas não posso duvidar de minha
própria proclamação e tenho de, no mínimo, acreditar em meu protesto. A
primeira e única evidência que assim me é dada, no âmbito da experiência
absurda, é a revolta. [...] A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de
uma condição injusta e incompreensível” (CAMUS, 1997, p. 20 – 21).
A
revolta camusiana contra a história não se revela somente pela descrença num
caráter teleológico, mas por muitos empregarem a esse caráter uma fé absurda,
uma esperança num futuro de progresso pelo sacrifício de um presente aguerrido.
É
nesse sentido que Franklin Leopoldo e Silva esclarece o problema do significado
paradoxal de revolta em Camus, em seu artigo intitulado Arte, Subjetividade e História em Sartre e Camus:
A
dificuldade de compreender o real significado da revolta em Camus provém de que
teríamos, para isso, de pensar a condição humana como reunindo contraditoriamente,
isto é, tragicamente, as atitudes de recusa e aceitação: recusa do mundo pelo
homem e aceitação humana enquanto recusa do homem pelo mundo. É importante
notar que, por mais difícil que seja para Sartre compreender este ponto, a
recusa da história em Camus não significa recusa do mundo (2000, p. 2)
Parece
que, convencido da passividade de Camus ante a história, ao contrário do que
nos adverte Leopoldo e Silva, Jeanson acusa o argelino de atuar como juiz da
própria história, sobretudo quando escreve: “[...] Camus se creyó cómodo em la
historia, a tal punto que comenzó a
moralizarla” (1999, p. 33). Ou ainda: “[...] se Camus estuviese buscando, pra
si mismo, um refugio, y antecipadamente se esforza por justificar aqui um
‘desprendimiento’, uma evasión hacia algún refugio donde pudiera finalmente
entregasse a las delicias rebeldes de uma existência sin história” (1999, p. 37).
Nesses
moldes, Jeanson critica Camus, como se cobrasse uma postura não-reacionária. Ao
escolher a revolta à revolução Camus também é acusado de escapismo frente à
história e favorecimento ao pensamento da direita francesa por essa postura e
por escrever demasiado bem. Ao passo que Camus responde n’A Carta a Jean - Paul Sartre, às críticas: 1)“Em realidad su colaborador
[Jeanson] no puede dejar de pensar que no existen fronteras precisas entre el
hombre de derecha y la crítica del marxismo dogmático” (1999, p. 51); e 2)
Apenas repare em lo poco cortés de hacer crer que el buen estilo es de derecha
y que los izquierdistas debem, por virtude revolucionaria, escribir em jerga y
mal.” (1999, p. 52). Para dizer diferente, Camus apimenta sua resposta
ratificando que não há muita diferença entre as práticas da direita ante as mesmas
do marxismo cristalizado e que, para ser de esquerda não pudesse escrever bem,
como se fosse privilégio somente da direita.
O
que fica claro, então, é que a posição de Camus frente a história é de revolta,
debitando a esta em detrimento daquela um inconformismo, uma insatisfação com o
presente esmagador. Fica mais explícito ainda que o homem não pode ser reduzido
à história apenas, mas que ela exige e nos empurra a uma atitude de ação em
detrimento da contemplação. Como Sísifo, que deixa o cume da montanha para
buscar sua pedra e levá-la novamente ao pico infinitas vezes. Há de se
encontrar um sentido a cada vez que este sobe a montanha? “A própria luta para
chegar ao cume basta para encher o coração de um homem” (CAMUS, 2012, p.141). Notadamente,
para além das críticas de seus ex-companheiros, a posteriori, mais especificamente de desvirtuar a revolução e de
deriva à metafísica, Camus já havia desenvolvido n’O Mito de Sísifo (1941) toda uma construção argumentativa para sua
ideia de Revolta em detrimento da de revolução, bem como dos elementos de
enfrentamento do absurdo. É o que Camus enseja no capítulo II, de O Mito de Sísifo (1941), a saber, O Homem Absurdo, base para esta atividade reflexiva.
2.3
“Apesar de Você”: Os (Des)Caminhos camusianos à História.
No
Brasil, no início da década de 1970, em plana Ditadura Militar comandada pelo
General Médici, explodiu um sucesso musical que, em pouco tempo foi percebido
pela censura e proibida sua execução à sociedade: era “Apesar de Você”, de
autoria de Chico Buarque de Holanda, regravada por Clara Nunes, desavisadamente
de que seria um hino contra o regime opressor reacionário brasileiro.
Não
obstante, vemos, assim como o impacto da música de Buarque na sociedade
brasileira daquela década, as atitudes apontadas por Camus para o enfrentamento
do absurdo. Não são elementos éticos a
priori, mas formas singulares de viver a partir do absurdo. Para ilustrar o
paralelo que faço, cito Chico:
[...] Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar [...] (BUARQUE, 1970).
O
desafio do brasileiro ante a ditadura é similar ao do homem camusiano frente ao
absurdo. Camus enseja, então, três atitudes: o Donjuanismo, o Comediante (ator)
e o Conquistador. Em especial, para ser coerente ao elemento central da nossa
atividade, a recusa à história, nos deteremos um pouco mais sobre o último
personagem.
Primeiro,
o apaixonado conquistador de corações mil vive seus romances não pela ausência
de amor, mas porque ama intensamente. Diz Camus: “O que o Don Juan põe em
prática é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende a
qualidade” (2012, p. 85). Ele vive o presente intensamente, não legando nada a
ninguém. Nesse sentido, a recusa da histórica por Camus é traduzida como a
recusa à nostalgia dotada de esperança, de não se apegar à contemplação, mas agir
no seu tempo. Viver e viver mais é o importante.
Segundo,
o ator, consciente de sua limitação psicossocial, cumpre seu papel ao mesmo
passo que interpreta quase que dogmaticamente seus personagens já vistos e
revistos nos ensaios, ele também cria. Mata, faz viver personagens. É um
construir-desconstruindo-reconstruindo. No dizer de Camus: “O ator dispõe de
três horas para ser Iago ou Alceste, Freda ou Gloucester. Nesse breve período
ele os faz nascer e morrer em cinquenta metros quadrados de tábuas” (2012, p.
92).
E,
terceiro, o Conquistador, que ciente de sua falibilidade, empreende suas
campanhas apesar da história. Aqui, certamente, ficará mais fácil a defesa de
Camus ante seus acusadores de inércia ante a história e, ao mesmo tempo de
demonstrar sua posição em favor da revolta. Nos dois casos, pressupõe-se que há
um engajamento de Camus e que esse vai em direção ao indivíduo. “Sempre chega o
memento em que é preciso escolher entre a contemplação e a ação. Isto se chama
tornar-se homem” (CAMUS, 2012, p. 101). Portanto, o argelino caracteriza o
personagem como sendo um aliado a seu tempo. Aquele que mesmo com as promessas
eternas de glórias, continuam desafiar a história, porque são conscientes de
que nada dura e de que há uma ausência de salvação. Desse modo Camus se livra
da acusação de que “‘ciertamente , el rebelde no niega la historia que o rodea,
em ella trata de afirmasse, pero se encuentra frente a ella, como el artista
frente a lo real, y la rechaza sin escaparle’” (1999, p. 40).
Assim
como na música de Buarque, esses personagens recusam seu destino, o destino
traçado pela história e o ultrapassam estando ainda neles. Assim como o
paradoxo de Camus em relação à história.
CONCLUSÃO
Se
diante das condições históricas que nos oprime existem alternativas de enfrentá-las,
sejamos realistas: decidamos pela história, como escreveu Camus. Se a
realização do humano está atrelada ao tempo, mais especificamente ao seu tempo,
engajemo-nos nele.
O
que Camus certamente não concordaria é com o uso da história como promessa de
amanhã seguro, que pode desviar em assassinatos em massa, com justificativas
niilistas, as quais assistimos e revisitamos em boa parte da história do século
XX.
Em
suma: Camus materializa por meio de Sísifo a aspiração da liberdade, que nesse
autor encontra-se na posição individual, mas não individualista, de tomada de
decisão diante daquilo que aprisiona o homem. Tem consciência de que sua
humanidade é a do próprio homem. Por isso não se retira da vida, nem permite
que a retirem de outrem. Não procura o suicídio e condena os assassinatos em
nome das ideologias. Se “é preciso imaginar Sísifo feliz”
é também necessário reconhecê-lo fora da história, porque se deve manter uma postura
de vigilância contínua a ela. Mas, sobretudo, na história como sujeito
paradoxal, contraditório e finito.
BIBLIOGRAFIA
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulinha Watch. 9.ed.
Rio de Janeiro: Record, 2012.
______. O Estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. 22.ed. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
______. O Homem Revoltado. Tradução de Valerie Rumjanek. 3.ed. Rio de
Janeiro: Record, 1997.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Novo Testamento: “Eu”. In: _____. A Ideologia Alemã. Tradução de Rubens
Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2013. Cap. 3, p. 235 – 434.