CRÍTICA À CRÍTICA
DA EDUCAÇÃO
OU A INVERSÃO DA
FORMAÇÃO HUMANA
Vivemos num mundo invertido. Um tempo no
qual os humanos humanizam as máquinas e coisificam os homens. É um tempo de
estranhamento e coisificação, tanto dos humanos em relação às coisas que produzem,
quanto às pessoas com as quais se relacionam, bem como a si mesmo. Primeiro, porque
não desfrutam das coisas que produzem, causando um abismo entre produção e
consumo. Segundo, porque se não desfrutam do produto do seu trabalho, não faz
sentido executá-lo. Terceiro, se não faz sentido e não usufrui dele, enxerga no
outro um humano injusto, um desumano que tem o que não se esforça para produzir.
E, quarto, ver-se excluído, logo se sente inútil e vazio diante da existência
material, bem como da sua atividade laborativa. É o mundo da inversão. O humano
se coisificou!
Diante desse mundo invertido são
procuradas atividades para buscar sentido à vida invertida. Sem noção de que
vive num mundo invertido, o homem procura fugir das condições angustiantes da
vida invertida que leva, quando não resolve dar fim a esta. Apela para
instituições que garantem a existência e a reprodução desse mundo invertido.
Busca na religião outra vida num paraíso desprovido de violência, injustiça e
medo, mas encontra outra inversão: a religião inverte o mundo já invertido. A
religião coloca o homem em segundo plano e a divindade em primeiro. Em troca de
uma promessa de esperança no além-morte, os humanos se anulam e se afastam das
atitudes que os levariam a sua emancipação do fantástico e do extraordinário no
mundo real. O milagre é a concretização da extrema negação da força do homem. O
mais profundo sentimento de descrédito no humano depositado na divindade. É o
homem que se anula, confiando em si mesmo, no médico e na ciência, usados pela
divindade que os criou inteligentes. Deus é a anulação do homem enquanto ser
potente, criador e justo.
A partir do sistema de inversão
completo, busca-se na ideia, no especulativo, na metafísica, o que no mundo
invertido material, concreto não se encontra. Como não há justiça no mundo
invertido, clama-se pela justiça divina. Não tendo saúde clama-se pelo poder de
cura do divino. Explorado com um salário mínimo que não garante a sobrevivência
por mais de quinze dias, faz “corrente das finanças”. Por não ver honestidade
na política, clama por governantes justos. Por não ter segurança e paz, clama
por não-violência nos templos e nas ruas com passeatas vestindo branco. A busca
pela religião só afastou o homem de sua humanidade, anulando-se. Numa palavra:
a satisfação das necessidades do homem foi tida como pecado. E o que prende o
homem foi exaltado. “A Religião é a inversão da inversão”, diz Marx. Tudo
quanto exalta o homem e o liberta tornou-se pela religião proibido e sem valor:
criatividade, natureza, pensamento e a liberdade. Assim escreve o apóstolo Paulo
aos Coríntios: “Onde está o sábio? Onde está o
erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a
sabedoria deste mundo?”. E continua: “Porque a loucura de Deus é mais
sábia do que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força
do homem”. A inversão foi concretizada.
Por esse mundo da religião, que é uma
denúncia indireta ao mundo invertido, caminha a Escola. Excepcional aos
cidadãos gregos, gerida particularmente e conduzida por escravo, o paidagós, minimizada aos clérigos
medievais nos mosteiros e controlada pelas ordens religiosas na modernidade, a
exemplo dos jesuítas no Brasil, o saber sistematizado, ao qual chamamos escola
hoje, ganha na contemporaneidade corpo mais pragmático e até teleológico. Na
sociedade burguesa, do capital na qual vivemos, onde o dinheiro se tornou um
deus e o lucro sua condição de salvação, a Educação e, consequentemente a
Escola, tornou-se um dos mecanismos mais influentes na lógica da produção e
reprodução do status quo burguês.
Toda a dinâmica da educação se subordina à logica capitalista da divisão do
trabalho, da hierarquização social, da mão-de-obra (des)qualificada, do
doutrinamento da classe trabalhadora e da sua alienação, não se reconhecendo
como tal, aspirando o topo da cadeia da produção, não reconhecendo a luta por
afirmação entre quem produz e quem administra a produção, entre quem faz todo o
trabalho e quem conta os louros da sobra incalculável da exploração daqueles,
achando que a riqueza do empresário está na mágica fórmula pela qual este
administra e possui seus meios de produção, desconhecendo que todo valor nasce
das mão do trabalhador que mantém viva a produção e que nunca ganha o
equivalente ao que trabalhou.
A Escola Burguesa não é a solução! Seguindo
os moldes da sociedade do capital ela é veneno, educação para a submissão, para
calar-se, para responder em silêncio, para obedecer, para reproduzir, para
punir, para imitar, para ficar em fila, para permanecer em sala, para
fardar-se, para ser fichado, para a corrupção, para a desonestidade, para o
conformismo: para o estranhamento. O estudante se ver como “a-luno”, aquele que
não é capaz de construir conhecimento, sem luz, e acaba dormindo na carteira
pela inércia do Estado que se felicita por ter atingido seu objetivo: manter a
desigualdade, chave da lógica da manutenção da sociedade capitalista, como se
fosse uma questão de individualidade, aumentando o número de trabalhadores com
baixa escolaridade, os quais não reconhecem na Escola uma oportunidade de
ascensão, coisa que o próprio Estado jura constitucionalmente fazer, mas
objetivamente mantém a massa desempregada para garantir a equação oferta-procura
de emprego. Por outro lado, os professores, por uma formação alijada decorrente
da mesma ótica da sociedade do capital, porque também são fruto dessa mesma
educação controlada, ou sentem-se culpados pelo fracasso educacional ou culpam
o estudante pela sua própria desgraça e sorte, apelando para psicologismos e
teorias alucinógenas que o próprio Estado cuida em implantar como remendo
atordoador.
É necessário dizer que o Estado não é o
equalizador dos conflitos sociais, o deus vivo na terra, o elemento imparcial e
soberano que cuida sempre de eliminar as contradições, com o objetivo de conter
a “guerra de todos contra todos”, como quis Hobbes, legislador como quis Locke,
tampouco a realização da liberdade como quis Hegel. O Estado é “um gerenciador
dos negócios da burguesia”, no dizer de Marx. Razão pela qual quando os
trabalhadores, sobretudo da educação fazem greve, direito garantido, este
decreta ilegalidade do movimento e multa, obrigando-os a voltar à condição de
exploração e estranhamento. A maioria dos nossos mestres não sabem disso, e se
sabem, preferem ficar em seus portos seguros da religião conformativa, da arte anestésica,
da política democrática ilusória, do esporte do “pão e circo”, ou seja, do
discurso falacioso e vazio de quem acredita ainda está no mundo pré-grego. A
massa de professores foi e está sendo preparada para ignorar que já surgiu a
Filosofia de Epicuro, Giordano Bruno, Spinoza, Voltaire e Diderot; a Física de
Newton e de Einstein, a psicologia de Vigotsky, a Economia Política de Marx e a
genialidade de Sartre. A educação de nossos mestres está centrada em teorias
que visam a continuação da sociedade burguesa como está: individualista,
segregada, preconceituosa, desigual economicamente e superficial. Cultuamos a
filosofia das ideias de Sócrates-Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Santo
Tomaz de Aquino, Descartes, Kant e Hegel; a Física de Kepler, o psicologismo de
Piaget, a economia de Adam Smith e a Política de Locke, Montesquieu e Rousseau.
As condições materiais nas instituições
de ensino públicas estão sempre na berlinda da falência. Ali há a lógica do
capital. Professores, coordenadores, demais funcionários e os que mais sofrem a
agressão da lógica capitalista, os filhos dos trabalhadores, a massa
educacional, se entopem em ambientes cada vez menos pedagógicos, sem liberdade
de criação metodológica, sem tempo para planejamento e estudo sistemático.
Entorpecida com projetos e lições sem sentido político, a Escola toma o tempo
pedagógico para inculcar na mentalidade já envenenada dos educandos a futilidade
dos conteúdos que ministra. Os conteúdos, por não dizer o currículo, é
desconexo, fragmentado, sem ligação entre disciplinas até mesmo de áreas afins,
quando o conteúdo, o mundo real é um só e não dividido. Não é principal
explicar tempos e modos verbais, mas o porquê disso. As fórmulas “exatas”
seriam bem mais atrativas depois de uma profunda demonstração do seu surgimento
histórico e para que foram usadas à época de sua criação. Os fatos históricos
melhor seriam compreendidos se não tivéssemos tanto pudor em expô-los; parece
que ainda vivemos à espreita da Santa Inquisição! Mas como ampliá-los
geograficamente se não se tem sequer um mapa em cada sala. Onde nascemos? Onde
vivemos? Que papel que o homem delega à natureza? Por que aprender os mecanismos
de uma língua estrangeira? Por que não se revela atletas de ponta nas escolas?
Como a Arte influenciou e influencia na condução da humanidade?
Precisamos compreender que as coisas no
mundo invertido não “são assim”. Elas “se tornaram assim”. Abandonar a
mentalidade de que as coisas foram criadas como são, assim como “Adão e Eva”, o
“Pecado Original”, O “Céu” e o “Inferno”, é o primeiro passo para desvendarmos
e construírmos soluções mais sólidas para aquilo que nos aflige. Devemos sair
do roteiro que a religião nos encarcerou que é a prisão perfeita para nossos
desejos de mudança. Se continuarmos acreditando no Estado, na Democracia, na
Hierarquia capitalista, continuaremos reproduzindo “as mesmas aulas que eles
deram pros meus pais”, no dizer de Gabriel- O pensador. Continuaremos
reproduzindo desigualdade, contribuindo com o Estado que massacra professores e
demais trabalhadores, podando paulatinamente o futuro dos nossos filhos,
trabalhando para a continuidade do engrandecimento dos negócios privados e
contribuindo para processo de inversão tão acelerado, no qual chegaremos ao
nível de que acharemos que tudo é “natural” e, nos conformaremos ou
continuaremos a sentirmo-nos culpados, ou culparemos a quem deveríamos ajudar.
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